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Sensei Pezão

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Sensei Pezão



   Nome Completo:
   Claudinier José da Conceição Filho

   Minha recordação tem um misto de tristeza e satisfação (tipo: missão cumprida).

   Trata-se do dia do enterro de meu Sensei, Claudinier (Pezão).

   Tristeza por questões óbvias, pela falta que este ser humano faria a cada um dos presentes ali...

   Missão cumprida, satisfação, pois pela primeira vez em minha vida, vi um enterro onde ao invés de terno e gravata ou roupa social, a grande maioria estava de Karate-Gi. Foi algo realmente marcante e muito bonito. O próprio Sensei foi enterrado devidamente, também de "kimono", pois a família entendeu que alguém que viveu intensamente por esta arte não poderia estar vestido de forma diferente.

   Foi emocionante, lembrando um pouco aquelas cerimônias feitas por militares...

   Carregamos o caixão e ao colocá-lo no local onde seria enterrado, após algumas palavras de um dos familiares, Todos realizamos um cumprimento, que nunca em minha vida teve tanto significado quanto aquele... Neste instante estou emocionado de novo só de lembrar...

   Agradeço pela chance de dividir esse momento tão marcante em minha vida com vocês. Até porque ao transcrever nossa lembrança, repassamos tudo em detalhes e é como se estivéssemos repetindo a emoção vivida.

   Quem assistiu o filme "O Último Samurai" lembra-se que no final do filme, quando o Imperador solicitou ao Capitão Nathan Algren que contasse como o Samurai Katsumoto morreu, ao invés disso ele preferiu falar sobre como Katsumoto viveu. Pois bem, a seguir vou descrever uma fagulha de como foi a vida de Sensei Pezão, uma vida dedicada ao Karate-Do.

   Atravessando a Fortaleza

   Num dia chuvoso como o de hoje (terça feira, 22 de abril de 2008), eu me perguntava se deveria ir treinar ou não. Na verdade no dia chovia muito mais que hoje...

   Resolvi encarar a chuva e fui treinar. Na época o treino era dentro de um CIEP no bairro Campinho, perto do 28ª DP. "Peguei" o ônibus e fui.

   Ao chegar no Dojo - todo "ensopado" é claro - eis que me deparo com uma situação inédita para mim: O Dojo estava vazio, com exceção de Sensei Pezão e sua esposa.

   De início confesso que fiquei meio sem graça... Só eu de aluno (molhado da cabeça aos pés...). Mas numa atitude de muita generosidade (que a cada dia que passa dou mais valor) o Sensei perguntou-me:

   - E aí? Vai treinar ou não?

   E claro, sempre com aquele sorriso habitual e bem característico dele, de quem estava sempre pronto para começar (confesso que até hoje me espelho muito nele quando a preguiça tenta se instalar).

   Pois então, começou como um treino normal (com diferença que eu tinha toda a atenção do Sensei), com aquecimento (Polichinelos, alongamento, flexão de braços, abdominais, etc), Kihon (com direito a muita correção) e aí ele aproveitou que eu estava só e propôs de começar mais cedo o Kata (normalmente fazíamos antes o kihon-Ipon ou Jiu-Ipon e ainda algum exercício específico).

   Então comecei: Heian-Shodan (2x)
   Heian Nidan (2x)
   * Sempre uma vez contada com correções e depois uma sem contagem, no ritmo do Kata. E por aí foi...:
   Heian-Sandan (2x)
   Heian-Yondan (2x)
   Heian-Godan (2x)
   Tekki-Shodan (2x)

   Pensei (em meio ao cansaço): "Bom, agora acabou..." (eu só sabia fazer até o Tekki-Shodan).

   Então Sensei Pezão bradou: - Bassai-Dai!

   Fiquei pálido! "Como assim Bassai-Dai?" - Pensei.

   "- Eu ainda não comecei a aprender Pezão... " Falei pra ele.

   Com aquele mesmo sorriso ele respondeu: - Então vai aprender hoje!

   Eu estava num misto de felicidade e medo (lembrando que eu estava com uns 14 para 15 anos...).

   Respirei fundo, cumprimentei e falei em alto e bom som, pela primeira (e inesquecível) vez:

   "- Bassai-Dai!"

   Sensei Pezão se colocou ao meu lado e serviu de guia pra mim. Isso não acontecia numa aula normal, pois sempre tinha um graduado para fazer esse papel.

   Concluindo: Ficamos mais de uma hora fazendo e refazendo a seqüência do Bassai-Dai.

   Como podem perceber, um dia muito marcante pra mim e que divido com vocês como forma de homenagear meu Sensei. Como ele gostava de dizer:

   - Oss Samurai!



Homenagem enviada por Marcel Cavalcante em 28 de abril de 2008.
Rio de Janeiro - RJ - Brasil.

 





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