Home | Homenagem | Sensei Gichin Funakoshi

Sensei Gichin Funakoshi

Gichin Funakoshi




 Gichin Funakoshi
(1868-1957)

 

A história do mestre Gichin Funakoshi se confunde com a própria história do Karatê, por isso a ele é creditado o título de "Pai do Karatê Moderno", devido aos seus esforços em divulgar essa arte para o mundo.

Mestre Funakoshi veio de um meio social bastante diferente daquele que formou Kano e Ueshiba(1). Para entender a posição de Funakoshi como um dos três mestres do budo, precisamos primeiro considerar a diferenciada cultura de Okinawa.

Principal ilha da cadeia Ryukyu, Okinawa está situada a 480 quilômetros ao sul da extremidade do Japão "continental"(2) e dista 1.600 quilômetros de Tóquio. Okinawa é uma ilha pequena, com uma área de aproximadamente 115 quilômetros quadrados e um clima subtropical, que seria classificado como benigno se não fosse a constante ameaça de tufões - podem ocorrer até 45 em suas vizinhanças em um único ano, e o impacto direto desses tufões e tão frequente quanto assustador. O solo é rochoso e a cobertura florestal, escassa; fora da temporada de tufões, que vai de março a setembro, o suprimento de água doce muitas vezes era (e ainda é) precário. No século XVII, a cana-de-açúcar e a batata-doce se tornaram as principais culturas. Pouca coisa a mais florescia na ilha e, para sobreviver, seus habitantes dependiam basicamente do mar, que lhes fornecia peixes e trazia os navios mercantes até o litoral. A população de Okinawa no começo do século XX estava em torno de 120 mil habitantes.

A antiga cultura de Okinawa se caracterizava por uma tradição matriarcal bem definida. Embora os reinos fossem ostensivamente governados, em conjunto, por um rei e uma grande sacerdotisa, as tropas eram enviadas para a guerra em nome da grande sacerdotisa, e não em nome do rei (pois as deusas eram vistas como as verdadeiras protetoras dos seres humanos); as sacerdotisas também resolviam as disputas legais. Assim como as grandes sacerdotisas oficiavam os principais ritos da corte governante, a mulher mais idosa da casa conduzia os ritos familiares importantes. Em certa medida, a posição das mulheres em Okinawa se enfraqueceu devido à introdução do confucionismo e do budismo nos séculos XV e XVI - no teatro de Okinawa, os budistas são sempre retratados como grandes vilões - mas, no geral, elas permaneciam em pé de igualdade com os homens, situação mais confortável do que a que ocorria com as mulheres na China e no Japão continental.
________________
(1) Jigoro Kano e Morihei Ueshiba são reconhecidos respectivamente como os "fundadores" do judô Kodokan e do Aikidô.
(2) O termo "Japão continental" (mainland Japan, no original) refere-se à porção do arquipélago japonês composta por suas principais ilhas, Hanshu, Kyushu e Shikoku. Apesar de inexato, esse termo é largamente utilizado na língua inglesa.

 

Constantemente em guerra, os Três Reinos (do Norte, do Centro e do Sul) foram finalmente unificados em 1429, sob Sho Hashi, fundador da dinastia Sho. Durante o reinado de Sho Shin (1477-1526) foi estabelecido um estado confucionista e imposta à população a proibição da propriedade privada de armas. Graças ao lucrativo comércio com a China, com o Japão continental e com restante do sudeste da Ásia, o reino de Ryukyu floresceu até ser invadido, em 1609, pelo combativo samurai de Satsuma, um feudo em Kyushu. O feudo de Satsuma era o mais guerreiro do Japão, com uma proporção entre samurais e pessoas comuns de um para três (a média nacional era de um para dezessete).

Embora o Reino de Ryukyu mantivesse sua independência nominal, a diminuta nação foi lentamente exaurida pelo duplo ônus de contínuos pagamentos de tributos aos chineses e de tratados desiguais de comércio com os senhores de Satsuma. Apesar de terem sofrido materialmente, os okinawanos mantiveram sua rica e espiritualizada cultura centrada na música, na poesia, na dança e na celebração da vida em geral. Os senhores de Satsuma reforçaram a proibição da propriedade de armas e, mais tarde, impediram até mesmo a importação de armas pelo governo, para fins de autodefesa. Um relato sobre o "reino pacífico" de Ryukyu chegou até Napoleão, na França, que se maravilhou com o fato de um país conseguir manter a paz e a ordem sem recorrer às armas. Muitos visitantes, no passado e no presente, também comentaram sobre a "hospitalidade, gentileza e aversão à violência e ao crime" dos habitantes de Okinawa.

Eles podem ter vivido sem armas, mas certamente não eram fracos nem indefesos. A lenda de que os camponeses de Okinawa criaram o karatê para se defender dos notórios ataques dos valentões samurais de Satsuma não parece ter muita base. Antes da invasão de Satsuma, a proibição das armas já estava efetivada havia mais de cem anos. Mas, na prática, é verdade que policiais desarmados precisavam confiar em algum método para proteger a população e subjugar os desordeiros, assim como cidadãos comuns necessitavam de uma forma de autodefesa contra os assassinos e desordeiros, que existem até mesmo nas sociedades mais pacíficas.

Como Okinawa esteve em contato estreito com a China por séculos, não é de se surpreender que "mão chinesa" - o significado original de karate - nomeasse as muitas formas de artes marciais, baseadas em modelos chineses, que eram praticadas na ilha. Os okinawanos aprenderam diversas formas de boxe em suas viagens comerciais à China, e mestres chineses de kempo (ch'uan fu), que imigraram, ensinaram na própria ilha. Há evidências de que algumas técnicas também foram importadas dos sistemas de lutas com mãos nuas da Indochina. Em grande parte, essas formas de boxe nunca foram além de lutas de rua, uma diversão popular nos conturbados portos de Okinawa.

Além das formas importadas de boxe chinês, parece que, através dos séculos, também foram criadas formais mais nativas de arte marcial pelas classes altas de Okinawa. Esses sistemas nativos eram chamados de okinawa-te, "mão de Okinawa". Privados de armamentos convencionais, os habitantes da ilha inventaram métodos de transformar instrumentos de uso diário, tais como bastões e pequenas foices, em armas mortais. Os desconfiados senhores de Satsuma ordenaram que muitas das ferramentas permanecessem trancadas à noite em depósitos governamentais, obrigando os camponeses e pescadores a retirá-las a cada manhã. Também existia uma forma de luta corporal competitiva chamada tegumi, algo parecido como sumô, que era praticada publicamente por homens e meninos de todas as idades.

Com exceção do tegumi, as artes marciais de Okinawa eram praticadas em rigoroso segredo, para evitar sua observação tanto por parte dos senhores de Satsuma como por escolas rivais. As técnicas marciais eram consideradas patrimônio de família e protegidas zelosamente de geração a geração. (Muitos movimentos de karatê, entretanto, foram engenhosamente incorporados à dança folclórica de Okinawa, e ainda hoje algumas escolas incluem dança folclórica como parte do currículo de treinamento.) Em Okinawa, a prática de artes marciais nunca teve apoio popular, como o budo no Japão continental, e jamais existiu uma classe de guerreiros profissionais bem armados que se comparasse aos samurais. De fato, nos tempos antigos nunca houve dojô em Okinawa - o karatê era praticado à noite, atrás dos muros de jardim, no interior das florestas ou ao longo das praias desertas. Nem havia uniforme-padrão de treinamento - os praticantes de karatê de Okinawa costumavam vestir o mínimo indispensável. Também em contraste com o Japão continental, onde as técnicas eram cuidadosamente catalogadas em rolos de pergaminho e as linhagens de transmissão claramente delineadas, em Okinawa quase nada era escrito, não se mantinha registros, o que tornava praticamente impossível chegar a qualquer conclusão concreta sobre a história das artes marciais na ilha.

Disso tudo podemos concluir que a cultura material e marcial em que nasceu Gichin Funakoshi diferia significativamente daquela vivida por Jigoro Kano e Morihei Ueshiba no Japão continental.
Gichin Funakoshi nasceu em Shuri, a capital real de Okinawa, provavelmente em novembro de 1868. O ano oficialmente registrado de seu nascimento é 1870, mas em sua autobiografia Funakoshi alegou que foi feita uma alteração posterior para permitir que ele participasse de um exame aberto aos nascidos a partir de 1870. Na lápide de seu túmulo consta o ano de 1870, mas parece que durante sua vida Funakoshi usou as duas datas de maneira indiscriminada - isto é, ele na verdade não sabia em que ano nascera.

A família de Funakoshi pertencia à classe shizoku, a pequena nobreza. (O nome de família era originalmente lido como Tominakoshi.) Seu avô foi um renomado intelectual confucionista que chegou a tutor da família real. Foi-lhe concedida uma generosa pensão quando se aposentou, mas seu devasso filho Gisu, pai de Funakoshi, dissipou a fortuna da família através do jogo e da forte bebida awamori. Prematuro de sete meses e sem esperança de viver muito além da infância, Funakoshi foi entregue aos seus velhos avós para ser criado. Mas surpreendeu a todos ao se transformar num menino normal e saudável, embora um pouco fraco. Desde cedo o avô lhe ensinou os clássicos chineses e o menino acabou provando ser também um estudante dedicado e talentoso.

Funakoshi entrou em cena justo quando a velha ordem estava sendo duramente confrontada pela nova, ele foi pego em cheio. As reformas do período Meiji chegaram à distante Okinawa com algum atraso (o rei de Okinawa ficou sem ser formalmente deposto até 1879), mas, quando as novas leis foram promulgadas, definiram-se as linhas de batalha entre o Partido da Iluminação e o Partido Intransigente. Os nobres de Okinawa, diferente dos samurais do Japão continental, não tiveram qualquer problema com a revogação do privilégio de portar duas espadas (um privilégio de que nunca gozaram, afinal), mas eram fanaticamente apegados aos seus quimonos e, especialmente, aos seus rabichos no alto da cabeça. Esses rabichos (mais parecidos com os usados na China do que com os usados no Japão continental) eram um indicador da posição social e da boa educação dos nobres de Okinawa, e a perde desse símbolo significou o fim de seu mundo (que era exatamente o que os reformadores Meiji tinham em mente).

Enquanto adolescente, Funakoshi não tinha uma opinião própria e definida sobre o assunto, mas o mesmo não se passava com os membros de sua família, que eram obstinados defensores do Partido Intransigente. De fato, a opinião da família era tão forte que Funakoshi foi forçado a desistir da vaga que conseguira na Faculdade de Medicina de Tóquio, porque a escola não matriculava alguém que usasse rabicho. Quando ele eceitou um posto de professor em Okinawa, em 1888, com a condição de que cortasse o rabicho, seus furiosos e magoados pais quase o renegaram. Contudo, "a sorte estava lançada", como escreveu Funakoshi. Tanto para ele como para Okinawa, a velha ordem foi-se para sempre.

Funakoshi viveu os 30 anos seguintes em Shuri e Naha (a nova capital de Okinawa) ou em suas cercanias, trabalhando como professor e treinando karatê. Em sua autobiografia, ele diz que foi apresentado ao karatê quando tinha cerca de 11 anos, por um colega, filho do mestre Yasutsune Azato. Mas outras fontes afirmam que Funakoshi só começou a treinar por volta dos 20 anos e seu primeiro professor foi Taitei Kinjo (1837-1917), apelidado de "punho-de-ferro" por sua habilidade de matar um boi com um único golpe. Kinjo aparentemente era um sujeito rude e mal-humorado, e foi questão de alguns meses para que Funakoshi o deixasse. Tornou-se então aluno interno de Azato, onde começou a treinar seriamente sob a orientação de um professor a quem respeitou e amou.

Apesar de vir de uma família da alta nobreza, Azato (1828-1906) era um leal defensor do Partido da Iluminação e foi um dos primeiros a renunciar ao seu rabicho. Alto e de ombros largos, ele era um intelectual talentoso, bem como um mestre em diversas artes marciais - karatê, kendô, arco e flecha, equitação. Graças à tradição e à proibição, pelo governo Meiji, das artes de luta de Okinawa (ameaça potencial ao regime nascente), o karatê ainda não era praticado abertamente e as sessões de treinamento ocorriam à noite, no jardim de Azato. Ele recomendou a Funakoshi: "Transforme suas mãos e pés em espadas", e treinou-o impiedosamente em kata. No Judô, kata são formas padronizadas praticadas habitualmente com um parceiro, enquanto no karatê, kata são geralmente praticados de forma individual e consistem de sequências que incluem socos, pontapés, bloqueios e movimentos evasivos, básicos e avançados. Mestre Azato não se deixava impressionar facilmente, assim, muitas vezes passavam-se meses até que Funakoshi pudesse avançar para outro kata.

Depois dos treinos, era comum Azato dar orientações a Funakoshi sobre as dimensões psicológicas do karatê. Ele afirmava que a conduta adequada e as maneiras dignas eram tão importantes quanto a técnica. Funakoshi ficou admirado com o conhecimento preciso e detalhado de Azato sobre os outros mestres de artes marciais de Okinawa - seus nomes, onde viviam, seus pontos fortes e suas fraquezas. "O segredo da vitória", Azato dizia a Funakoshi, "é conhecer a si mesmo e a seu oponente, por meio de uma preparação cuidadosa e da observação atenta. Desse modo, você nunca será pego de surpresa." Azato também explicava essa abordagem aos acontecimentos mundiais, predizendo astutamente uma guerra entre Rússia e Japão muito antes que de fato ocorresse.

Outro importante professor de Funakoshi foi um companheiro de Azato, Yasutsune Itosu (1831-1916), também um nobre que havia sido alto funcionário do antigo governo. Ele se aposentara do serviço público em 1885 e ensinava karatê em sua casa para alguns poucos alunos selecionados. Itosu era de estatura média, mas tinha um peito em forma de barril, o corpo duro como granito e uma força extraordinária nos braços. Mesmo usando as duas mãos, Azato era incapaz de derrotar Itosu no braço-de-ferro; Itosu conseguia esmagar uma grossa haste de bambu com sua pegada de morsa. Conta-se que ele visitava as tumbas imperiais todos os dias e, em suas idas e vindas, praticava socos contra as paredes de pedra ao longo da estrada. Ele também atravessava grossas pranchas de madeira com seu soco, um talento que lhe foi útil certa vez, quando o trancaram para fora na festa de um amigo - ele furou o pesado portão com um soco, destravou o fecho e entrou. Famoso por seu temperamento equilibrado, mesmo ao enfrentar um ataque não provocado, ele deixava que os golpes se chocassem inofensivamente contra seu corpo antes de colocar, com calma, o atacante de joelhos simplesmente segurando seu pulso. Sob a orientação de Itosu, Funakoshi levou dez anos para dominar três kata básicos.

Por um breve período, Funakoshi também estudou com o principal mentor de Azato e Itosu, Sokon Matsumura (1809-1901), o "Miyamoto Musashi de Okinawa". Com mais de 1,80m de altura e possuidor de um olhar que hipnotizava, Matsumura serviu a vários reis de Okinawa na qualidade de instrutor da corte e de chefe dos guarda-costas. Como enviado do governo, aperfeiçoou suas habilidades em boxe chinês na província de Fuchu e aprendeu a arte da espada do estilo Jigen Ryu, em Satsuma. Além disso, Matsumura era um intelectual e um calígrafo de primeira classe. Sua esposa, Tsuru, era tão talentosa quando ele, e o namoro deles foi bastante incomum. Uma moleca à moda tradicional de Okinawa, Tsuru derrotava qualquer homem que a enfrentasse no braço-de-ferro, no levantamento de peso ou no karatê. Matsumura achou que ela seria a mulher perfeita para ele, mas Tsuru só aceitava ser cortejada por alguém que a derrotasse. Quando Matsumura aceitou o desafio, Tsuru desferiu um golpe hábil, que ele não foi capaz de defender. Contudo, a luta pareceu equilibrada o suficiente para manter o interesse e assim ela lhe deu outra chance; dessa vez os golpes foram simultâneos. Um empate estava bastante bom para Tsuru e, desse modo, ela e Matsumura se casaram.

(Conta-se uma história similar sobre a bela Rui Sasaki, de Edo. Filha de um súdito de Tokugawa, Rui era mestra de jujutsu e esgrima, e seu orgulhoso pai lhe disse: "Nunca se esqueça de que você é tão boa quanto qualquer homem". Ele morreu ainda jovem, infelizmente, e coube a Rui continuar a linhagem familiar. Ela abriu um Dojô em Edo e enfrentou todos que apareciam, até que certo dia encontrou alguém à sua altura. Esse foi o homem com quem se casou, tendo ele adotado o nome da família dela.)

Embora certos praticantes modernos de karatê tenham obtido notoriedade lutando contra touros, essa prática tem uma longa história em Okinawa, como já vimos. O rei de Okinawa, certa vez, desafiou Matsumura a tentar a sorte contra o mais bravo touro da região. (Nas touradas de Okinawa, onde dois touros são postos a lutar entre si, os animais são criados para serem absolutamente ferozes.) Matsumura aceitou, mas naquela noite e em todas as noites seguintes, por uma semana, vestindo as mesmas roupas, o esperto mestre de karatê entrou sorrateiramente no cercado do touro e lhe bateu várias vezes na cabeça com um pesado bastão. No dia da tourada uma grande multidão reuniu-se para assistir - Guerreiro Matsumura versus Touro Assassino. O touro, ao ser solto do cercado, avançou furiosamente para o centro da arena. Mas parou bruscamente ao ver seu oponente - Matsumura com a mesma roupa, segurando o pesado bastão. De imediato, o animal aterrorizado virou-se e fugiu. A multidão exultou, saudando Matsumura como o "mestre que pode derrotar um touro feroz apenas com o olhar".

Funakoshi também treinou com outros professores em Okinawa, sendo que o mais notável foi Kanryo Higaona (1853-1917). Higaona (também se pronuncia Toonno) havia passado grande parte de sua juventude na China, aperfeiçoando-se em boxe. De lá trouxe vários tipos de pesos, sacos de pancada, tamancos de ferro e assim por diante, que introduziu nos treinos de karatê em Okinawa. Higaonna dizia aos seus alunos: "No treinamento de karatê, como na vida, quando alguma coisa bloqueia o seu caminho, desvie para o lado e mova-se ao redor dela". Funakoshi também parece ter se familiarizado com as armas de Okinawa, especialmente o bo (um bastão de 1,80m), que talvez tenha aprendido a usar com seu pai, um reconhecido mestre nessa arma.

Além de treinar com vários dos mais conceituados mestres de Okinawa, Funakoshi estava constantemente forjando seu corpo. Passava hora após hora endurecendo os punhos e os cotovelos contra o makiwara, a prancha de socar do karatê.

Quando soprava um tufão, Funakoshi pegava uma grossa esteira de palha, subia ao telhado de sua casa, ficava na "posição do cavaleiro" do karatê, segurando a esteira de palha na frente do corpo como proteção contra os objetos que voavam, e enfrentava a tempestade em combate direto. Ele andava de 15 a 25 quilômetros diariamente, em suas idas para a escola, durante o dia, e ao treino de karatê, à noite; levantava grandes pesos e usava os tamancos de ferro fundido; praticava jogo-de-braço e participava das equipes de cabo-de-guerra. (Uma das atividades que não fazia era nadar, pois nunca tinha aprendido, apesar de viver numa ilha subtropical.)

Como mencionado acima, as mulheres de Okinawa eram conhecidas por sua força e determinação. A esposa de Funakoshi não era exceção. A família de Funakoshi contava com dez pessoas - o casal, seus quatro filhos (três meninos e uma menina), seus pais e avós - e não era abastada; a senhora Funakoshi precisava tingir roupas e cultivar hortaliças para ajudar nas despesas. Apesar das pesadas tarefas diárias, à noite ela começou a praticar karatê com o marido e logo estava quase tão hábil quanto ele. Funakoshi dava geralmente treinamento a alguns alunos, e assim a senhora Funakoshi pôde conduzir as sessões quando ele precisava se ausentar.

Durante esses anos em Okinawa, surgiram muitas oportunidades para Funakoshi aplicar o karatê em situações práticas. Lidar com valentões de rua, bêbados arruaceiros e pequenos criminosos não era problema para o mestre de karatê. Certa vez, por exemplo, ele repreendeu um sujeito que estava se comportando mal num banquete. O desordeiro urinou em Funakoshi para provocar uma luta. Funakoshi deixou que ele atacasse, mas o valentão não conseguiu acertar um único golpe. Depois de um tempo, caiu exausto no chão, com a raiva dissipada. Funakoshi não havia desferido um só golpe, deixando que o sujeito derrotasse a si mesmo.

O encontro mais angustiante para Funakoshi em Okinawa foi quando ele e seu filho mais velho cruzaram com uma das enormes e mortais víboras que proliferam na ilha. Funakoshi permaneceu calmo, não dando à serpente a oportunidade de atacar; então ele e seu filho puderam escapar ilesos.

Já os seus maiores desafios de karatê aconteceram na mediação de disputas entre diversos grupos em conflito. Ele era frequentemente solicitado a resolver problemas entre professores e alunos do sistema local de ensino e, uma vez, foi chamado pela polícia para mediar uma antiga disputa entre duas aldeias do distrito de Kokuryo, no norte de Okinawa. As partes em conflito se enfrentaram em território neutro, com Funakoshi como mediador. A atmosfera estava tensa e a violência podia irromper a qualquer momento, mas Funakoshi manteve a calma e desarmou a situação, chegando-se a uma solução aceitável após dois dias de árdua e contínua negociação. Mais tarde, ele escreveu que tinha sido seu treinamento de karatê que lhe dera resistência e presença de espírito para superar os obstáculos que havia enfrentado durante o incidente. De modo semelhante, a senhora Funakoshi era frequentemente solicitada a mediar disputas que irrompiam nas vizinhanças da família.

Durante esses anos, a prática de karatê em Okinawa tornou-se gradualmente mais conhecida. Por volta de 1892, Itosu e alguns de seus alunos deram uma demonstração para Shintaro Ogawa, um comissário de educação proveniente do Japão continental, que então recomendou o ensino de karatê para a Primeira Escola Ginasial Pública de Okinawa e para a escola local de Candidatos a Oficial. Em 1901 (ou talvez 1902), o próprio Funakoshi fez uma demonstração para Ogawa, o que levou o karatê a ser incluído no currículo de educação física das escolas de Okinawa. A partir de 1906, demonstrações públicas de karatê se tornaram comuns em Okinawa, com Funakoshi e alguns dos principais praticantes cooperando para disseminar a arte na ilha.

O karatê de Okinawa também chamou a atenção de oficiais militares do Japão continental. Os três primeiros candidatos a oficial, originários de Okinawa, que foram admitidos eram alunos de Itosu, e os médicos que os examinaram fizeram referência especial aos seus físicos admiráveis e em excelentes condições. Um dos recrutas, Kentsu Yabu (que será mencionado mais adiante), tornou-se herói na Guerra Sino-japonesa por defender com sucesso a posição de sua companhia, apesar de estarem em desvantagem de dez para um. Em 1912, uma tripulação da Frota Imperial foi enviada para aprender karatê em Okinawa.

Em 1917, Funakoshi recebeu convite para dar uma demonstração de karatê de Okinawa no Butoku-den, o grande pavilhão de artes marciais de Kyoto. Essa é considerada a primeira demonstração de karatê, fora de Okinawa, que fora patrocinada oficialmente. (Desde o começo do período Meiji, havia praticantes de karatê de Okinawa entre os que imigraram para o Japão continental - e também para o Havaí e os Estados Unidos -, mas parece que nunca houve uma apresentação formal antes dessa.)

Relutando em aceitar um cargo num distrito distante e desejando dedicar-se à promoção do karatê, Funakoshi renunciou à sua condição de professor no começo de 1921. (Conta-se que, durante toda a carreira de 30 anos como professor, Funakoshi jamais deixou de dar uma aula por motivo de doença; ele atribuía sua boa saúde a uma constante dieta de karatê.) Em maio desse ano, o príncipe herdeiro Hirohito, ao retornar de uma viagem à Europa, parou em Okinawa e assistiu a uma demonstração especial de karatê, realizada pelo grupo de Funakoshi no Grande Pavilhão do castelo de Shuri. O Príncipe adorou a demonstração e, mais tarde, recordou que as três melhores coisas que ele tinha visto em sua visita a Okinawa foram a bela paisagem, o fantástico canal do Dragão (na Fonte Mágica do castelo de Shuri) e o karatê.

Após sua aposentadoria do sistema escolar de Okinawa, Funakoshi dedicou-se à formação de diversas associações para promover a cultura de Okinawa, em geral, e o karatê, em particular. Em maio de 1922, o Ministério da Educação japonês estava patrocinando a Exposição Atlética Nacional, em Tóquio, que ia incluir demonstrações de budo. Um convite para o evento foi enviado para o Escritório de Assuntos Educacionais de Okinawa. Esse seria um teste crucial para o karatê de Okinawa no Japão continental e, depois de muita discussão, decidiu-se enviar Funakoshi como representante de Okinawa, embora não necessariamente como o de melhor técnica. Afinal, ele era um intelectual, educador, bom orador e já maduro em seus 50 e poucos anos. Mas os funcionários de Okinawa concluíram que Funakoshi seria o representante ideal.

Funakoshi planejou muito cuidadosamente a demonstração, pois seria feita perante os mais altos escalões da sociedade japonesa. Sua palestra, preparada em detalhe e ilustrada com três longos rolos de pergaminho, e a dinâmica demonstração foram bem recebidas. Jigoro Kano ficou bem impressionado e pediu a Funakoshi que ensinasse alguns kata adequados ao Kodokan. Na verdade, alguns anos antes, Kano se correspondera com Funakoshi sobre a possibilidade de este ensinar no Kodokan, mas Funakoshi havia declinado - "Ainda estou, eu mesmo, no processo de aprendizagem do karatê", tinha sido sua resposta.

Dessa vez Funakoshi aceitou o convite, embora com algum receio. Inicialmente ele ficou admirado com a intensidade do treinamento no Kodokan e com a quantidade, a estatura física e a alta qualidade dos praticantes - não havia nada parecido em Okinawa. Todavia o ensino de Funakoshi no Kodokan correu bem. Kano incorporou alguns dos movimentos de karatê demonstrados por Funakoshi em um kata avançado de judô, e convidou Funakoshi para dirigir uma divisão de karatê no Kodokan. Funakoshi se sentiu obrigado a recusar, pois temia que o karatê fosse engolido pela imensa organização do judô Kodokan e nunca deixasse de ser uma arte auxiliar. Funakoshi, entretanto, ficou extremamente grato pelo gentil apoio inicial de Kano e, após a morte do mestre de judô, em 1938, sempre que Funakoshi passava em frente ao Kodokan, de bonde ou de carro, fazia uma reverência em direção ao escritório de Kano.

Embora pretendesse originalmente retornar a Okinawa depois de ensinar no Kodokan, Funakoshi resolveu permanecer em Tóquio. Alguns okinawanos proeminentes (incluindo membros da família real Sho, exilados em Tóquio depois da abolição da monarquia de Okinawa em 1879) insistiram para que ele ficasse na capital e apresentasse o karatê a um público maior. Além disso, seu filho mais velho já estava residindo ali. Após decidir estabelecer-se em Tóquio, Funakoshi compôs este poema:

Técnica superlativa do Pacífico Sul,
   esse karatê!

Que pena ver a verdadeira transmissão
   ameaçada.

Quem aceitará o desafio de restaurar o karatê
   à sua glória plena?

Com o coração imperturbável, olhando o céu azul,
   faço esta solene promessa.


Funakoshi mandou buscar sua esposa, mas ela relutava em deixar o lar. Como já foi dito, as mulheres de Okinawa eram responsáveis pela execução dos ritos ancestrais, e havia também outros compromissos. Apesar disso, ela apoiou a decisão do marido de permanecer em Tóquio, sentindo que lá ele podia realizar algo de grande importância.

Bastante solitário em uma cidade estranha, Fukanoshi enfrentou seu maior desafio. Okinawa havia sido um estado vassalo por séculos, por isso os okinawanos e seus costumes eram tipicamente tratados como coisas de segunda classe pelos japoneses continentais, em particular pelos que viviam na capital. Os okinawanos eram "diferentes" - tinham pele mais escura, falavam um dialeto rude e eram desesperadoramente provincianos. Não seria fácil convencer um japonês continental de que uma arte vinda de Okinawa pudesse ter algum valor real, especialmente uma que ele considerava derivada do boxe chinês. A sociedade samurai japonesa estivera sempre direcionada para as armas, assim, considerava que as artes não armadas eram para a gente comum. Muitos okinawanos desdenhavam a opinião dos continentais, mas Funakoshi era mais conciliador e esperava introduzir os melhores aspectos da cultura de Okinawa na cultura mais ampla do Japão.

Essa se mostraria uma longa e árdua batalha. Funakoshi conseguiu instalar-se no Meisei Juku, um alojamento para estudantes okinawanos, localizado na área de Suidotaba, em Tóquio. No local, arranjou uma sala diminuta, que mantinha impecavelmente limpa, mas como eram poucos os alunos, não garantiu uma renda suficiente. Obrigado a trabalhar como um misto de zelador, jardineiro e guarda-noturno do alojamento, era confundido muitas vezes com um simples empregado pelos vizinhos, pelos estudantes novatos e por repórteres de jornal. Foi forçado a convencer o cozinheiro do alojamento a tomar aulas de karatê em troca de um desconto no preço da comida, e teve de penhorar os poucos objetos de valor que possuía.

Apesar dessas circunstâncias difíceis, Funakoshi conseguiu publicar, com a ajuda de alguns patrocinadores, o primeiro livro sobre o karatê moderno, em fins de 1922. Intitulado simplesmente Ryukyu Kempo-Karate [técnicas de punho da mão chinesa RyuKyu], era ilustrado com desenhos dos kata e começava com uma série de testemunhos de japoneses proeminentes sobre as virtudes da arte (mesmo sendo originária de Okinawa).

Em primeiro de setembro de 1923, quando Funakoshi já havia conseguido montar um pequeno núcleo com cerca de dez dedicados alunos, aconteceu o Grande Terremoto de Kanto, que matou mais de 100 mil pessoas e destruiu grande parte de Tóquio. O alojamento Meisei foi atingido e alguns alunos de Funakoshi morreram ou ficaram seriamente feridos, e o treinamento, obviamente, parou.

Após o desastre, Funakoshi se sustentou fazendo trabalhos de estêncil para um banco e recebendo por tarefa. Enquanto o alojamento estudantil estava sendo reparado, Hakudo Nakayama (1874-1958), talvez o maior mestre de kendô da época, ofereceu generosamente a Funakoshi o uso de seu dojô nas horas em que estivesse livre. Mesmo depois do alojamento estar pronto, Funakoshi continuava a usar o dojô de Nakayama. Com o tempo, alugou uma casa nas vizinhanças, onde morou com seu terceiro filho, Gigo, que se juntara a ele em 1924.

Gradualmente Funakoshi atraiu mais alunos e começaram a se formar clubes de karatê em diversas universidades. Keio foi a primeira universidade a fundar um clube (em 1924), sendo rapidamente seguida por Takushoku, e depois por Waseda e Hosei. Logo clubes de karatê estavam funcionando na maioria das principais universidades e Funakoshi começou a ensinar também em algumas academias militares. Alguns gigantescos campeões de sumô também procuraram instrução (apesar de socos e pontapés não serem permitidos no sumô, os ataques de mão aberta o eram e os lutadores queriam aprender como realizar arremetidas mais eficientes), o que agradou imensamente ao diminuto Funakoshi.

Baixo, mesmo para os padrões japoneses da época, Funakoshi tinha bastante consciência de sua pouca altura. Quando estava em público, usava sandálias altas de madeira. "Não para aumentar a altura", assegurava Funakoshi, "mas para melhorar meu equilíbrio". Mas seus alunos notavam que, quando visitavam o mestre em sua sala, ele estava sempre sentado sobre duas ou três grossas almofadas. Ele também era bastante exigente quanto à sua aparência geral, arrumando-se sempre por uma hora ou mais a cada manhã.

Funakoshi e seus alunos participaram de duas outras importantes demonstrações de budo organizadas pelo governo durante a década, uma em 1924 e outra em 1928, esta últma coordenada pela Agência da Casa Imperial. Uma versão revisada do manual de Funakoshi foi publicada em 1926, com um novo título: Renten Goshin Karate Jutsu [artes de treinamento e de autodefesa do karatê]. O karatê estava encaminhando-se para assumir um lugar central na cultura contemporânea do budo.
 

Por volta de 1924, Funakoshi adotou um sistema de graduação semelhante ao do Kodokan, com os praticantes de grau dan usando faixas pretas. Seus alunos amarravam a faixa na frente, mas por alguma razão Funakoshi amarrava a sua de lado, mais ao estilo chinês. Funakoshi optou por um uniforme de treinamento mais leve que o usado no judô, permitindo assim maior liberdade de movimento para socos e pontapés.

Apesar de Funakoshi merecer ser reverenciado como o "pai" do karatê moderno, por sua promoção dessa arte em Tóquio e pela ampla divulgação de seus excelentes manuais, houve alguns outros pioneiros do karatê de Okinawa que representaram um papel significativo na expansão do karatê, tanto no Japão continental como no exterior.

Chokki Motobu (1871-1944) chegou a Osaka à procura de emprego em 1921, ano anterior ao do estabelecimento de Funakoshi em Tóquio. Como Funakoshi, Motobu estudara com Itosu por algum tempo, mas a maior parte de seu karatê havia sido aprendido nas ruas. Motobu gostava de brigas e seu estilo agressivo de karatê estava centrado no combate real - conhecia poucos kata e só deu instrução em um deles. Ele se interessava seriamente pelo jujutsu clássico, outra razão para que fosse para Osaka. Na primeira vez em que enfrentou um professor de jujutsu em uma luta de desafio, nocauteou seu oponente sem suar. Motobu também ficou famoso em Osaka ao derrubar um boxeador peso-pesado estrangeiro com um único golpe. (Motobu estava com mais de 50 anos nessa época.)

Em seguida, Motobu abriu vários dojô em Osaka e Tóquio, e ensinou em diferentes universidades (confiando num intérprete para traduzir seu dialeto de Okinawa para o japonês padrão). Em 1926, publicou um livro sobre karatê chamado Ryukyu Kempo Karate Jutsu: Kumite Hen [artes técnicas de punho de mão chinesa Ryukyu: edição de luta], para distinguí-lo do livro de Funakoshi, em caráter e estilo de karatê, e parece que os dois nunca se deram bem. Conta-se, contudo, que Motobu se abrandou com a idade e, perto do fim da vida, sua visão do karatê como uma arte refinada e espiritual era provavelmente bem semelhante à de Funakoshi. Motobu retornou a Okinawa pouco antes de irromper a Segunda Guerra Mundial e morreu em Naha, em 1944.

Funakoshi era muito mais ligado a Chojun Miyagi (1888-1953) e Kenwa Mabuni (1889-1952). Miyagi, que fizera parte do grupo que realizara a demonstração perante o príncipe herdeiro Hirohito, em 1921, foi inicialmente aluno de Kanryo Higaonna, mas, como homem de negócios, também teve muitas oportunidades de visitar a China e estava, portanto, familizarizado com várias escolas de boxe chinês. Miyagi também enfatizava a ligação entre o karatê e a filosofia budista. Durante sua visita a Okinawa, em 1927, Jigoro Kano encorajou tanto Miyagi quanto Funakoshi a ensinarem karatê no Japão continental. (Mais tarde, Miyagi recordaria que, apesar da importância do mestre de judô, Kano era uma das pessoas mais educadas e respeitosas que conheceu, e considerava-o um gigante entre os homens.) Ambos os mestres de karatê seguiram o conselho de Kano. Miyagi visitou o Japão continental pela primeira vez em 1928 e fez muitas outras viagens depois dessa; em 1934, esteve no Havaí por oito meses, numa viagem de instrução altamente aclamada. (Em 1932, Motobu teve sua entrada no Havaí recusada pelas autoridades de imigração, sem dúvida por causa de sua reputação como lutador de rua, e foi mandado diretamente de volta ao Japão.) Miyagi é considerado o fundador do estilo Goju ("duro-suave") de karatê. Morreu em Naha, de hemorragia cerebral, em 1953.

Mabuni, originalmente um policial de Okinawa, treinou com Higaonna e Itosu. Juntou-se a Funakoshi em Tóquio, em 1928, mas mudou-se para Osaka no ano seguinte, provavelmente como deferência ao prestígio de Funakoshi - não havia ainda alunos suficientes, em Tóquio, para sustentar dois professores de karatê. Como Funakoshi, Mabuni enfrentou a pobreza em seus primeiros anos no Japão continental, mas, em 1934, conseguiu abrir um pequeno dojô e publicou, depois disso, uma variedade de panfletos sobre seu estilo de karatê, o Shito Ryu. O nome indica uma mistura dos estilos de karatê de Higaonna e de Itosu. Mabuni enfatizava o estudo cuidadoso e a execução também cuidadosa de uma ampla seleção de kata - acreditava-se que ele dominava de 70 a 80 kata, mais do que qualquer outro mestre da época. Mabuni se estabeleceu permanentemente em Osaka e ali morreu em 1952.

Outro que imigrou de Okinawa para o Japão continental foi Kanbun Uechi (1877-1942), o fundador do Uechi Ryu, talvez a maior e mais influente escola de karatê hoje em Okinawa. Uechi ensinou karatê em Wakayama, de 1925 a 1946. E parece que, desde 1920, Kentsu Yabu (1866-1937), o soldado heróico mencionado anteriormente, vinha ensinando karatê para imigrantes japoneses em Los Angeles e no Havaí. (Durante os anos de 1920 e 1930, na costa oeste dos Estados Unidos e no Havaí, imigrantes japoneses foram crescentemente submetidos a ataques não provocados de racistas, por isso compreende-se que estivessem ansiosos para aprender judô e karatê.)

Um dos primeiros alunos de Funakoshi foi Hironori Otsuka (1893-1982), que já era um talentoso mestre de jujutsu do Shindo Yoshin Ryu quando começou a treinar karatê. Otsuka, que também treinou com Motobu e Mabuni e estudou com Ueshiba, acabou por estabelecer o Wado Ryu, uma das mais importantes escolas de karatê.

Em algum momento, no final da década de 1920 ou no começo da de 1930, Funakoshi foi apresentado a Morihei Ueshiba. Funakoshi assistiu a seminários especiais de Ueshiba e também visitava seu dojô, de tempos em tempos, para trocar opiniões sobre a verdadeira natureza do budô.

Em 1935, Funakoshi publicou um novo livro. O título em si já anunciava mudanças significativas: Karate-Do Kyohan [o caminho do karatê: texto mestre]. O karatê não era mais uma mera arte, era um "Caminho" e, para Funakoshi, karatê não significava mais "mão chinesa", mas sim "mão vazia". A substituição do significado de kara, de "chinesa" para "vazia", estivera em discussão durante anos entre os instrutores de Okinawa. Já em 1905, um praticante de karatê, chamado Chomo Hanashiro (1869-1945), havia sugerido a mudança e o clube de karatê da Universidade Keio fez realmente a substituição em 1929. A declaração de Funakoshi ajudou a tornar a troca permanente. Sem dúvida, o nacionalismo japonês também teve algo a ver com a troca de significado, mas Funakoshi preferiu interpretar essa nova versão de karatê como sendo "técnica de mão vazia", "vazio de egoísmo e de maus pensamentos", "vazio como o bambu oco, embora reto, flexível e inquebrável" e "vazio de ego, como sinônimo da verdade do Universo". Funakoshi substituiu também a antiga pronúncia dos nomes dos kata, que vinham em sua maioria do chinês vulgar, pela pronúncia mais elegante do japonês padrão.

Por volta de 1936, já haviam sido coletados fundos suficientes para abrir um verdadeiro dojô de karatê. Os alunos de Funakoshi chamaram-no "Shotokan", em homenagem a seu professor. Shoto significa "ondas de pinheiros" e era seu pseudônimo.

A partir de então, o estilo de karatê de Funakoshi passou a ser especificamente mencionado como Shotokan Ryu, embora ele mesmo desencorajasse tais designações, acreditando que todos os karatês eram "um" e deveriam permanecer livres de distinções sectárias. Contudo, falando em termos práticos, a técnica e a abordagem de karatê diferiam muito de mestre para mestre, e era natural que estilos diversos fossem reconhecidos como formando "correntes" (o significado original de ryu) separadas. O estilo Shotokan tornou-se uma dessas correntes. Ironicamente, embora o Shotokan Ryu tenha sido a força motora da introdução do karatê de Okinawa no mundo, ele nunca se estabeleceu firmemente na própria ilha.

Depois da abertura do Shotokan, o terceiro filho de Funakoshi, Gigo (1906-45), tornou-se seu assistente-chefe. Segundo todos os relatos, Gigo (alguns centímetros mais alto que o pai e cerca de sete quilos mais pesado) era tecnicamente talentoso e extraordinariamente forte - com seus golpes, vivia despedaçando as makiwara (pranchas para o treino de socos). Apesar de sua força, Gigo não era saudável. Tendo contraído tuberculose quando criança em Okinawa, ele frequentemente tinha de interromper seu treino para tossir sangue.

No Shotokan, Funakoshi-pai era conhecido como o "velho mestre" e Funakoshi-filho como o "jovem mestre". Esses títulos dão uma pista sobre o conflito de gerações. Quando os alunos quebravam as tábuas do chão com seus pontapés, Funakoshi-filho gritava, elogiando: "Muito bem!" Mas se era Funakoshi-pai quem estava conduzindo o treino, ele repreendia: "O que acontece com vocês? Isso é força demais!"

Para o pai, o coração do karatê era o treino dos kata, a autodefesa prática e o desenvolvimento do caráter: "A técnica não faz o homem; é o homem quem faz a técnica!" Para o filho, menos idealista, o karatê precisava criar um elemento competitivo, como o kendô e o judô, a fim de atrair e manter o interesse dos jovens. Já haviam começado as competições entre os clubes universitários de karatê, e Gigo acreditava que o Shotokan deveria seguir o exemplo. A questão nunca chegou a ser colocada entre o velho e o jovem mestre, pois Gigo morreu prematuramente, mas havia uma clara diferença entre os alunos treinados por Funakoshi-pai e pelo filho.

Nas aulas de Funakoshi-pai a ênfase estava no treino dos kata, visando o pleno desenvolvimento de todos os músculos e reflexos. O treino de luta era baseado na premissa de que um único golpe poderia decidir tudo (ikken hisatsu); um ataque devia ser imediatamente contraposto, sendo que o ideal era que ele fosse parado em seu percurso, agarrando-se a manga do oponente. Alguns arremessos e imobilizações eram utilizados. Funakoshi-pai permitia alguns treinos livres de luta, mas só depois que os fundamentos do karatê fossem completamente compreendidos.

Nas aulas de Funakoshi-filho, por outro lado, as posturas eram mais fluidas e diretas para facilitar a velocidade de ataque, e os pontapés de extensão total eram frequentemente utilizados - elementos valiosos para a contagem de pontos nas competições livres.

Independente de quem estivesse conduzindo as aulas, o treino no Shotokan era exaustivo. Ambos os Funakoshi eram especialistas no makiwara, golpeando-o centenas de vezes por dia e obrigando os alunos a fazerem o mesmo. Os kata eram praticados de 50 a 60 vezes, em seguida. Apenas um em cada dez alunos do Shotokan conseguia acompanhar o ritmo por mais que alguns meses.

Os alunos que resistiam, contudo, recebiam instrução especial e individual na casa dos Funakoshi, à noite. O aluno executava um kata, com ambos, pai e filho, fazendo observações. Essa era a maneira tradicional de instrução de karatê que existia em Okinawa.

Quando o Japão entrou na Segunda Guerra Mundial, o treino no Shotokan adquiriu uma intensidade desesperada. A luta corporal até a morte tornou-se uma possibilidade real para os jovens, que logo seriam enviados para a frente de batalha. Quando a guerra se aproximou mais da terra natal, as mulheres passaram a ser enviadas ao Shotokan para receber instrução de luta com bastão e com espada de madeira. Líderes militares iludidos acreditavam que, de algum modo, mulheres malnutridas poderiam ser ensinadas a lutar contra invasores norte-americanos armados até os dentes, pelas ruas de Tóquio. A atmosfera era pesada e um sentimento de iminente destruição invadia o país.

O ano de 1945 foi o pior na vida de Funakoshi. O Shotokan, "a conquista que coroou" sua carreira, foi reduzido a cinzas durante os bombardeiros aéreos a Tóquio; Okinawa foi arrasada durante a invasão das forças dos Estados Unidos, ficando um saldo de 60 mil civis mortos e 90 por cento dos sobreviventes desabrigados, uma escala de destruição que rivaliza com a de Hiroshima e Nagasaki. Em agosto, o Japão rendeu-se com a nação em ruínas; e Gigo, o filho de Funakoshi, morreu de leucemia. Milagrosamente, sua esposa conseguira escapar da devastação de Okinawa e rumou para Oita, em Kyushu, onde Funakoshi foi juntar-se a ela. Com a comida escassa, eles viveram em completa pobreza (como todos os outros) e, em 1947, a Sra. Funakoshi morreu de asma.

Privado de sua amada esposa e de seu amado filho Gigo, Funakoshi retornou tristemente a Tóquio para viver com o filho Yoshihide.

Era complicada a relação de Funakoshi com seu primogênito. Na juventude, Yoshihide havia sido um entusiasmado praticante de karatê e tinha treinado com Itosu, juntamente com seu pai, mas após a mudança para Tóquio, alguns anos antes de seu pai, envolvera-se com maus elementos e acumulara dívidas de jogo. Yoshihide começou então a pedir dinheiro emprestado para os discípulos de seu pai, sem pagar de volta, o que naturalmente provocou muito ressentimento entre os membros do Shotokan, causando uma infinita tristeza ao seu consciencioso pai.

Apesar desse e de outros obstáculos, Funakoshi conseguiu juntar os fragmentos e reconstruir o karatê Shotokan depois da guerra. Em 1949, foi formada a Associação de Karatê do Japão (karatê era a única arte marcial não proibida pelas Autoridades de Ocupação, porque foi considerada simplesmente um tipo de boxe, e não um budô nacionalista), e teve Funakoshi como consultor-chefe. Funakoshi retomou suas atividades didáticas, ensinando novamente em sua antiga universidade e no dojô de uma associação, enquanto criava alguns novos clubes.

Mas as coisas já não eram mais as mesmas. Depois da guerra, Funakoshi admitiu: "Me tornei dolorosamente consciente do quase irreconhecível estado espiritual do karatê nos dias de hoje". Então, com mais de 80 anos, Funakoshi continuou a enfatizar o treino de kata e a ética do karatê, mas suas aulas eram pouco frequentadas e teria sido ainda pior se os faixas-brancas não tivessem sido chamados a frequentá-las. Os jovens praticantes estavam interessados em competição, em marcar pontos, em movimentos rápidos. Eles não queriam praticar exercícios básicos e ser constantemente repreendidos por um senhor idoso, mesmo que esse senhor tivesse um entendimento insuperável do verdadeiro significado do karatê.

Depois da guerra, muitos estrangeiros começaram a solicitar permissão para estudar karatê. Quando um oficial militar dos Estados Unidos pediu que Funakoshi realizasse uma demonstração de karatê, o mestre respondeu (por meio de um intérprete): "Ficarei feliz em realizá-la, mas você deve primeiramente fazer um pedido por escrito e concordar em vestir seu uniforme quando vier à demonstração. Eu, também, estarei obviamente com vestimentas formais japonesas". Em outras palavras, o karatê não era para ser exibido, era uma arte séria.

O interesse estrangeiro pelo karatê aumentou de modo considerável na década de 1950. Um filme intitulado Karate-Do, com narração em inglês e mostrando brevemente Funakoshi, foi lançado em 1954 e distribuído no mundo todo. Os sucessores de Funakoshi no Shotokan, especialmente Masatoshi Nakayama (1913-1987), mais tarde difundiram os ensinamentos do mestre para todas as partes do globo.

Funakoshi viveu quase até os 90 anos. Ele atribuía sua longevidade e boa saúde ao karatê - "o melhor remédio que existe" e à vida simples. Ele nunca fumou, raramente bebia, dormia sobre uma esteira fina com apenas um cobertor, tanto no verão como no inverno, e banhava-se diariamente. Em sua autobiografia, escrita poucos anos antes de sua morte, Funakoshi aparenta ser bastante formal e puritano, mas seus jovens discípulos relatam em suas memórias que Funakoshi Sensei era muito amigável e falante fora dos treinos, e que costumava caçoar da vida amorosa deles.

Funakoshi faleceu em 26 de abril de 1957. Sua longa e frutífera vida personificou as virtudes do Karatê Shotokan: coragem, cortesia, integridade, humildade e autocontrole.


 


 

 

 

  




© Camacho