Sensei Lila

Sensei Lila

1. Gostaria que você se apresentasse: nome, sua formação, há quanto tempo pratica aikido, há quanto tempo dá aulas, em qual(is) espaços?

Lila: Meu nome é Maria Luiza Serzedello Kumagai, mais conhecida como Lila Serzedello ou mesmo Lila sensei. Sou faixa preta 6º dan Aikikai. Fiz curso de magistério como 2º grau e Faculdade de Artes Plásticas na FAAP. Dei aula de Arte de 1971 até o ano passado (2019). Pratico Aikido há 41 anos ( desde 1979), e dou aulas há 30 anos (a partir de 1990). Iniciei dando aulas na APA – abri o treino infantil em 1990 a pedido do Ono Sensei. Nessa época os meus alunos eram além da minha filha (Flora), o Daniel e Karina Ono e Emília C. Martinez, entre outros. Em 1991 iniciei as aulas para adultos na escola de dança Espaço Viver. Saindo de lá, dei aula em diversos espaços e em duas escolas: Colégio I.L. Peretz (por 12 anos) e na Escola Arraial das Cores (por 15 anos). Levei também o Aikido para a cidade de Jundiaí em 1993 e depois de cinco anos, passei o comando do grupo para o sensei Rubens Caruso Jr. Hoje dirijo há 21 anos o Dojo Aikido Nova Era na R. Augusta 2.233, em São Paulo/SP.

2. Como o aikido surgiu na sua vida? E por que continuou a praticar essa arte marcial? Quem foram seus mestres?

Lila: Conheci o Aikido através de uma amiga que praticava. Após praticar por vários anos Yoga e Dança Moderna estava à procura de uma prática que eu pudesse levar para o resto da vida. O meu início foi muito difícil, mas tinha certeza de que era o lugar que queria ficar. Por que eu continuei apesar de todas as dificuldades? Porque me apaixonei pelo Aikido! Tive apenas um único mestre, Keisen Ono, apesar de frequentar inúmeros seminários, ele foi meu único mestre e a minha grande referência.

3. Enquanto aluna, existiam outras mulheres praticantes também? Você saberia dizer quantas ainda continuaram suas práticas?

Lila: Logo após o meu início no Aikido, diversas mulheres entraram para treinar.  Muitas chegaram a faixa preta, mas que continuaram praticando até hoje apenas a Mieko Osawa.

4. Como foi o caminho para se tornar sensei de aikido?

Lila: Foi difícil! Naquela época havia reprovações nos exames. Pertencíamos a FEPAI, e a banca examinadora era composta de outros senseis que não aprovavam o estilo do Ono sensei e então, éramos reprovados. Eu mesma fique durante 6 anos na faixa azul. Muitos colegas desistiram, mas eu permaneci. Vi muitos alunos entrarem faixa branca e me ultrapassarem, chegando à faixa preta bem antes de mim. Como profissional do Aikido, também sofri muitas críticas e fui muito desacreditada como sensei. Cansei de atender pessoas que visitavam o meu dojo, que entravam para pedir informações e perguntavam quem era o sensei responsável. Quando dizia que era eu, recebia um sorriso irônico e iam embora.

5. Atualmente não encontramos nenhum tipo de aula específica, orientações ou treinos técnicos para a formação de senseis. Você acha que isso tem alguma importância para a multiplicação do aikido?

Lila: O Aikido, como a maioria das artes marciais orientais, segue a estrutura tradicional de praticante, para estagiário e professor. Poucos senseis, me lembro apenas do Chiba sensei de San Diego, criaram cursos específicos para senseis. Acredito ainda neste sistema tradicional, embora sempre tivesse vontade de criar um curso desses. Aliás nestes tempos de quarentena, tenho dado um curso teórico para os meus alunos, que vai capacitá-los como futuros senseis.

6. Você prepara suas aulas de alguma maneira?  Qual o foco principal da sua aula? (respiração, treino prático, armas…)

Lila: Os meus treinos seguem a seguinte estrutura: aquecimento/alongamentos e respirações e treino de tai jutsu (corpo a corpo). Armas apenas no treino de sábado. A minha experiência de 41 anos de tatame, me permite não preparar a aula. Quando inicio o treino, observo quem está naquela aula e como as pessoas estão. Sinto a energia do grupo e assim a aula aparece.

7. Como foi o processo para montar o próprio dojo? (Parabéns pelos 20 anos de existência do Dojo Nova Era!) Quais dificuldades você encontrou e o que a estimula a continuar com seu próprio espaço?

Lila: Em dezembro de 1998, eu dava aula na academia de Judô Ono, na própria Rua Augusta, em São Paulo, e fui informada que em dez dias o Sr. Mario Ono, dono do espaço, iria fechar o dojo.  Saí na época, eu e os meus alunos mais graduados, a procura de um lugar. O Adriano achou pelo site um espaço que correspondia as nossas necessidades. Meus alunos ajudaram na reforma. A grande dificuldade foi, e é até hoje, a financeira – a sobrevivência do espaço e minha – mas ter um lugar só seu é muito especial. Os alunos se sentem aconchegados no seu próprio dojo. Pude constatar isso no mês de fevereiro deste ano: tiramos o feriado de Carnaval para pintar o dojo. Quanta dedicação desses meninos maravilhosos!!

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8. Qual a proporção de alunos homens e mulheres no seu espaço?

Lila: Atualmente temos uma média de 60% de homens e 40% de mulheres, mas levei muitos anos para ter esta porcentagem.  Tenho duas alunas na graduação de 3º dan e duas Shodans.

9. De um modo geral, você acredita que exista diferença em treinar ou ensinar homens ou mulheres?

Lila: Não acredito que exista diferença em treinar homens ou mulheres, a diferença está nos indivíduos.

10. O que é ser bom aluno na prática do aikido? E quais características que um bom sensei deve possuir?

Lila: Um bom aluno para mim, é um aluno assíduo, presente nos treinos, companheiro dos outros alunos, que preza e ajuda a manter o dojo. Um bom sensei, deve ajudar no desenvolvimento dos seus alunos e não fazer diferença entre eles, estar sempre estudando e pesquisando.

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11. Em algum momento, por ser mulher, você encontrou obstáculos praticando ou ministrando aulas?

Lila: Inúmeras! Há sempre muito preconceito e desmerecimento das alunas e sensei mulheres. Um bom exemplo é a questão das  minhas graduações que foram retardadas em relação aos meus colegas homens. Quando eu comecei a dar aulas as pessoas (alguns colegas) achavam que por ser mulher,  só poderia dar aula para crianças, ou auxiliar algum outro professor e nunca assumir a direção de um dojo.

12. Sabemos que você é mãe. Era possível continuar a prática do aikido estando gestante? Como foi esse período? E depois, conseguiu conciliar a maternidade com os treinos?

Lila: Treinei durante toda a minha gestação, até os seis meses eu treinava normal; aos sete meses eu treinava, mas sem executar rolamentos. Após o período de repouso depois do parto, reiniciei os treinos, mas com dificuldades, principalmente durante os nove meses seguintes, pois ainda amamentava. Nunca parei de treinar (e fazer exames também – fiz exame grávida, com bebê no colo e em todos fui reprovada), mas somente consegui voltar a treinar três vezes por semana, quando minha filha tinha três anos.

13. Durante a participação de seminários, alunos mais graduados acabam “corrigindo” seus parceiros, não deixando que ele mesmo descubra os equívocos ou erros. Você percebe se isso acontece com homens e mulheres em igual proporção, ou na sua visão as mulheres sempre são mais “corrigidas”? Por favor, comente.

Lila: Eu acredito que seminário é para você aprender o que o sensei está mostrando, mas infelizmente tem gente que vai lá para se mostrar apenas, inclusive imprimindo um ritmo de treino que prejudica as pessoas que estão ao seu lado.  No meu seminário de 40 anos, teve um sensei que ficou dando “aula particular” para alguns participantes. Enquanto todos treinavam irimi nague, ele mostrava à uma aluna (que havia pedido a ele para ensinar) suwari wasa kokyu ho. Para mim isso foi o cúmulo do desrespeito!

14. Quais senseis (brasileiros ou internacionais) que você conheceu que mais te impressionaram e agregaram técnica ou reflexões ao seu aikido?

Lila: Pratiquei com inúmeros senseis, posso citar alguns que me impressionaram pela técnica, didática e espírito, como: Christian Tissier, Hiroshi Ikeda, Willian Gleason.

15. Já viajou para treinar no Hombu dojo/ Japão ou treinou fora do país? Por favor, comente suas experiências.

Lila: Infelizmente ainda não consegui ir ao Japão. Estava tudo programado para ir este ano,  mas com esta pandemia não foi possível. Em 1994 participei do Summer Camp comemorativo de 30 anos de Aikido nos USA, com Yamada sensei. Lá pude treinar não só com o próprio Yamada como com o atual Doshu, e também Mitsunari Kanai, Seiichi Sugano, Kazuo Chiba, Akira Tohei, Kurita, Tamura senseis. Foram sete dias de treino intensivo. Participei também do Summer Camp do Saotome Sensei em Washington D.C. em 2012.

16. Poderia dizer quais senseis mulheres são suas referências atualmente dentro do aikido?

Lila: Não como referência, mas admiro bastante o trabalho da sensei Linda Holliday 7º Dan – Aikido Santa Cruz na California. Como ela me disse uma vez: “We are sisters”.  Admiro também a sensei Mary Heiny e  Micheline Tissier.

17. Você concorda que existam menos mulheres do que homens praticantes da nossa arte marcial?

Lila: Sim, é só ver as fotos dos seminários. A maioria das mulheres acham que artes marciais são um território masculino e que não seriam capazes de praticar Aikido. Muitas tem vergonha do contato físico também. Somente agora com aumento da violência contra mulher, é que está aumentando a  procura pelas artes marciais.

18. Como você acha que as mulheres podem ser estimuladas a se tornarem senseis?

Lila: Sendo um exemplo positivo, digno de admiração.

19. No seu dojo vocês oferecem aulas para crianças? Percebemos que muitas crianças interrompem a prática do aikido em um determinado período e remotamente voltam quando já são adultos. Como vocês estimulam que elas continuem suas práticas à medida que vão ficando mais velhas?

Lila: A permanência das crianças no Aikido, depende muito dos pais. Pergunte a Emília (Emília foi aluna de Lila sensei quando criança e até hoje continua sua prática no aikido, ministrando aulas para crianças na APA) por que ela continuou e nunca desistiu? Foi porque o Walter (pai da Emília) a levava. Tenho alunos que praticam comigo há mais de 10 anos. Por quê? O pai não os deixa desistirem! Como estimulo a continuidade dos treinos deles? Atualmente abri um treino “intermediário” onde recebo iniciantes e adolescentes.

20. O aikido é uma arte marcial que não tem competição. Você acredita que por não ser competitiva e os exames de faixa não terem reprovação (na maioria dos dojos), que isso possa, de alguma forma, desestimular algum praticante ou o interesse por essa atividade?

Lila: Não acho que, não haver competição seja um fator de desestímulo. Quem escolhe o Aikido já sabe da sua estrutura.Quem disse que não tem reprovação? Quem reprova é a sensei, que não indica o aluno para fazer o exame antes. O peso da reprovação fica todo nas costas da sensei. E apesar de não ter reprovação no dia do exame, vejo como os meus alunos o levam a sério e ficam muitos nervosos.

21. Como você enxerga o aikido nos dias de hoje e quais são suas expectativas para essa arte marcial no futuro?

Lila: Eu vejo a prática do Aikido cada vez mais necessária nos dias de hoje. A lição do O´ sensei de Harmonia, Amor e Paz, não deve ser relevada a segundo plano na prática do Aikido. Vejo com tristeza muitos grupos priorizarem apenas a técnica, a “eficiência”, esquecendo que Aikido é caminho de aprimoramento do espírito.

Por favor, deixe suas observações finais.

Lila: O caminho do Aikido não é fácil, suave ou tranquilo, mas é extremamente benéfico a todos e na minha opinião, extremamente prazeroso. Nós como senseis, precisamos parar de vender Aikido só como eficiência, defesa pessoal, e vender o Aikido no seu todo, como bem-estar, crescimento pessoal e equilíbrio.

Entrevista realizada por Erika Baldo.
Aikidoísta e idealizadora do blog mulheresnotatame.com

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